segunda-feira, 20 de março de 2017

Vertigem
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Meu eu-lírico sou eu mesma, rota dadaísta 
vertiginosa, 
E explodo a uma velocidade surreal e sibilante
Na traseira de um caminhão. 
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Meus pedaços vão subindo subindo subindo 
Até atingirem o pico do inferno 
E sem paraquedas  desabam no chão numa massa gelatinosa. 
Disforme. 
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Sou um eu-lírico estropiado, restos inertes
Segundo a Santa Madre Igreja 
Sem salvação. 
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Meu eu-lírico não tem nada de lírico 
Nada de poesia
Nada de seguro.
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Deixo ao mundo 37 parcelas pra pagar
Enquanto pago minha eternidade na danação.
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Bloody Mary
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Vazio que se faz assim fora de hora
é soco na boca do estômago
é amargo
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é um silêncio imposto
poesia de rima gasta
que fica engasgada
pela poeira de um boteco antigo.
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de repente o tempo fechou.
a casa caiu.
boteco esvaziou
alguém partiu. sem riso. sem vela.
-- Sem choro, seus filhos da puta!
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solitário em cima do balcão,
como se olhasse perguntando algo
um copo de Bloody Mary pela metade.
A morte não tem graça.
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Para Véio China, 20/ 03/ 2015

domingo, 18 de dezembro de 2016

Bem ou mal a gente sempre se acostuma
às ausências doloridas
aos novos sabores
às novas rotinas
e aos silêncios,  ah, os silêncios...

E a gente se acostuma aos remédios amargos
àquela dor que medicina não tira
à procura de novos planos
que a gente nem sabe por onde começar.
Mas a gente começa.

Bem ou mal, o nó na garganta desata
o rio que me embaçava a vista, seca
e novas sementes vão sendo plantadas.
E bem ou bem a gente vive
porque mal já não dá mais.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

in the border


há uma linha tênue
entre o que sou e a sanidade
vermelha-cor-de-dentro
corpo ardendo ardendo
poros pedindo silêncio.
mundo inteiro em desacerto
se equilibrando in the line.


o rosto suando
é pouco é nada é dose
overdose overandover
cada vez mais à flor da pele
rompida, que impele a implosão

vejo na pele marcada
o limite traçado, por mim demarcado
arde-me os olhos, acalma-me alma

na pele rasgada
vermelho-combustão

há um silêncio pesado e assassino 
so hard soul border.
em segundos,
milhares de mim aos ares 
milhares de mim ao chão.

(em) bananada


madrugada
quente/fria
na parede estrelada.
adoçando a boca
nua e sem peso
trago, perdida, a alma
embananada.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Poeminha final




gente nova não deveria morrer
de nenhuma morte.
ainda mais tão nova
ainda mais tão gente.
com a morte na velhice, a alma se consola
quase que silenciosamente
como se aceitasse uma lei
que o coração já prevê.
mas com gente nova, não.
gente que mal começou a ver e ouvir a vida
e que nem conheceu todos os passos
de todas as danças
não deveria dar de cara com o fim
deveria ficar mais e passar por tudo que é da vida
obrigatoriamente.
e embriagar-se de loucuras secretas
e gozar de flores e estrelas no meio da madrugada.
gente nova deveria viver
em vez de ir descansar em paz.
(em homenagem a Rafaella Leoa, borderline - suicídio 04/11/16)


sábado, 13 de setembro de 2014

Poema ao contrário


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Me falta um cigarro entre os dedos.
e a paz tranquila de quem se despede  d
aquele verso único
que se consegue uma vez na vida
antes de enterrar a poesia gasta.
.
Me faltam dois dedos de uísque, 

e não venham com taças de vinho
e o sono pesado e embriagado
alheio à ressaca do dia seguinte.
.
Me sobrou o lítio
artificial
assassinando qualquer poema
de dor, ou de gozo.
De amor inventado.
.
Duas bolas castanhas pousam acima de minhas olheiras
sem histórias para contar
nem pesadelos.
.
E se é de mim mesma a falta que sinto
é que nem sei mais encontrar minhas partes
que vão ficando espalhadas pelos caminhos
sem nem ao menos brotar um pé de mim.