domingo, 8 de maio de 2011

Curva

a Tiago Francisco da Luz

Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.
(Ap 21:4)




Havia uma curva
e o fim logo adiante.

Tudo o que era som
silenciou-se.

Faltou tempo.
Faltou a promoção
e faltou a faculdade,
faltou o casamento,
faltaram os filhos

e um filho falta.

Sobra dor, sobra vazio.
Sobra ausência do riso e da voz de quem dorme.

domingo, 20 de março de 2011

Outono

O vento espalha os cabelos da moça
e sacode as roupas no varal

Tem cara de menino travesso
que brinca com as folhas
distraidamente.

Seu cheiro de vida
inunda a casa
transborda
e bate as portas.

Da janela vejo o outono brincando em meu quintal.

terça-feira, 15 de março de 2011

Alvoroço

Dessa minha estranha curiosidade alvoroçada
surgem teus olhos hipotéticos, teus dedos imaginados,
tons de vozes e silêncios ocultos
que meus sentidos tentam captar.

Tento descobrir sorrisos milimetricamente desenhados.
E, como se teu gosto dependesse de imaginar-te,
construo sensações e reorganizo teus traços
pouco a pouco em devaneios bobos.

Invade-me pela respiração
essa tua existência abstrata e incompleta
serena-me e me cala e desconcerta.
Transcende,
desordenadamente.

Entre pensamentos trôpegos e calafrios
Atribuo nomes e cores às tuas feições monocromáticas.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Surreal

a Danny

A mim, que tenho alergia à realidade,
impõem verdades intravenosas
que me ardem a corrente sanguínea.

Roubam-me as estrelas, até as mortas,
e os pés incertos e temerosos pisam a vida
- areia movediça de caráter sarcástico e duvidoso.

Partículas de utopias se distanciam anos-luz de meus dedos.
Pesam.

Eu, que inexisto para a realidade,
sou tragado por ela
Slowmotion
O mundo é uma pintura confusa sem ponto fixo,
sequência de ilusões de ótica girando.

Faltam-me a reação, o nexo e o oxigênio.

É que nem sei respirar em outro universo
Pluridimensional.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Dezembro

A cidade fervilha e transborda calores.
Ela dança
viva,
cheia de tremores e raios ultravioletas,
orgasticamente.

Em outro tempo,
o mormaço era só essa embriaguez,
feita de movimentos e suor,
que controla as pessoas, automóveis
e seus ruídos misturados.

Mas agora o sabor das ruas se confunde com seus nomes.
Suas calçadas e esquinas
explodem vida em miséria e sensualidade.
E as pessoas passam.
E os vendedores gritam.
E a criança chora.

Sob o sol
dezembro desliza no negrume quente do asfalto.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Desinvenção

No início era o caos,
e surgi-me do avesso.
Sinteticamente infinita,
inexata e desmetrificada.

De partes espalhadas,
desconexas, incongruentes
formaram-se os passos,
pensamentos e labirintos.

E do caos, fez-se mais caos
desdobrando-me em versos.
Linhas imperfeitas e teimosas
desenharam-me por dentro e por fora
quando eu fui sem nome.

Então sugaram o caos e inventaram um muro.
E depois a calmaria, o silêncio, o vazio. O nada.

Sobre uma dor

Se dessa dor invisível,
calada e definitiva
surgissem metáforas
e saltasse poesia

Seria ela talvez menos dor.

E enfeitada de cores
flores e rimas,
E disfarçada de um encanto
quase sutil

Nem dor mais seria.

Despida enfim do silêncio
talvez fosse
mais reticente
e menos definitiva.