sábado, 26 de fevereiro de 2011

Surreal

a Danny

A mim, que tenho alergia à realidade,
impõem verdades intravenosas
que me ardem a corrente sanguínea.

Roubam-me as estrelas, até as mortas,
e os pés incertos e temerosos pisam a vida
- areia movediça de caráter sarcástico e duvidoso.

Partículas de utopias se distanciam anos-luz de meus dedos.
Pesam.

Eu, que inexisto para a realidade,
sou tragado por ela
Slowmotion
O mundo é uma pintura confusa sem ponto fixo,
sequência de ilusões de ótica girando.

Faltam-me a reação, o nexo e o oxigênio.

É que nem sei respirar em outro universo
Pluridimensional.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Dezembro

A cidade fervilha e transborda calores.
Ela dança
viva,
cheia de tremores e raios ultravioletas,
orgasticamente.

Em outro tempo,
o mormaço era só essa embriaguez,
feita de movimentos e suor,
que controla as pessoas, automóveis
e seus ruídos misturados.

Mas agora o sabor das ruas se confunde com seus nomes.
Suas calçadas e esquinas
explodem vida em miséria e sensualidade.
E as pessoas passam.
E os vendedores gritam.
E a criança chora.

Sob o sol
dezembro desliza no negrume quente do asfalto.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Desinvenção

No início era o caos,
e surgi-me do avesso.
Sinteticamente infinita,
inexata e desmetrificada.

De partes espalhadas,
desconexas, incongruentes
formaram-se os passos,
pensamentos e labirintos.

E do caos, fez-se mais caos
desdobrando-me em versos.
Linhas imperfeitas e teimosas
desenharam-me por dentro e por fora
quando eu fui sem nome.

Então sugaram o caos e inventaram um muro.
E depois a calmaria, o silêncio, o vazio. O nada.

Sobre uma dor

Se dessa dor invisível,
calada e definitiva
surgissem metáforas
e saltasse poesia

Seria ela talvez menos dor.

E enfeitada de cores
flores e rimas,
E disfarçada de um encanto
quase sutil

Nem dor mais seria.

Despida enfim do silêncio
talvez fosse
mais reticente
e menos definitiva.

Intransponível



Trago nos olhos sombras
intransponíveis
feitas de silêncio e voz.
.
Elas me são empurradas garganta abaixo
e me arranham por dentro
com gosto de sal e saliva.
.
Por isso não encontras minha alma
não lês minhas linhas
nem entendes que não sou segredo
nem mistério.
.
É até alcançares meus restos impenetráveis,
teus pés já terão se cansado de poeiras e pedras
espalhadas em meus cantos.

sábado, 17 de abril de 2010

Congelamento

Inverno
esculpindo na parede
um contorno antigo
e frio.

Em silêncio
agulhas
do tempo

Penetram
o coração.

Esquecimento.


(Clayton Pires e Cris)

A um poeta

Dessa tua loucura travessa
nascem tons que nem se sabiam,
colorem teu chão cor-de-vida e refletem
pedras íntimas de tropeços e passos.

Nos traços feitos do que só se imagina
explodem pedaços de sóis, jardins e mares.
Tecem-se vidas e lembranças fugidias
que o tempo espalha, mas que voltam.

E os retalhos do mundo que esboçam tuas faces
nem sabem dizer se vais como homem ou menino,
Porque revelar-se e não o fazer, de verso em verso,
é próprio da tua essência livre e transparente.

Tua liberdade é uma louca que tem olhos de criança
e alma virgem que vai parindo poesia.