segunda-feira, 13 de maio de 2013

EU NUNCA TIVE MEDO DA MORTE

EU NUNCA TIVE MEDO DA MORTE...

... nem quando ela andou me rondando, ora lasciva, sedutora, ora criança crescida que estendia os braços em minha direção me chamando para brincar. Ela era cheia de risinhos e escárnios, às vezes nem expressão  ela tinha. Mas como me atraía aquele olhar vazio e solitário pedindo companhia. Me hipnotizava. Por mais de uma vez joguei com ela, ficamos frente a frente, ela não conseguia nem transmitir confiança com seu feitio esquálido e mudo e muito menos metia medo. 
Mas agora, vendo-a assim, aproximando-se lentamente, sorrateiramente, sem risos nem escárnios, só uma face sisuda e desconfortável de alguém  que mudou tanto a ponto de não ser reconhecido de imediato, agora  que ela passa por mim fingindo não me conhecer e nem faz questão de me olhar, agora ela me faz estremecer.
A morte mudou sua feição. Amadureceu. Tem jeito de quem não está para brincadeira. Virou coisa séria. Ora avança, ora recua, mas na maioria das vezes permanece estática, observando, como se esperasse o momento ideal. Algumas vezes eu consigo até sentir seu cheiro, ou sua respiração. A morte respira lenta e profundamente, quase um suspiro. Ela anda pela casa   como se fizesse parte das paredes ou dos móveis. Conhece cada um dos cômodos, os quartos, tenho mesmo a impressão de que nos conhece a todos. 
Eu não a conhecia, eu não a esperava. Uma desconhecida caminhando pela casa e deixando seus suspiros pesados no corredor. Não me procura nem tem mais olhos solitários. Instalou-se e seu olhar é de espera e paciência. E insiste em ficar. 
Lembro-me de quando eu não tinha medo da morte, ao meu lado sempre pareceu-me inofensiva. E ainda agora se tivesse voltado não como uma estranha, mas como aquela com quem cheguei a me acostumar, minha alma não se inquietaria. 
 Mas dessa morte, íntima de casa, que não me ronda, não me mira, e que não está para brincadeira, ah... dessa morte, eu tenho medo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

MANHÃ

A manhã chegou com cheiros e cores
de outono
decidido e debochado
invadindo a janela.

A quinta-feira derramando
sol e frio
no meu quintal.

sábado, 16 de março de 2013

MARIPOSA


madrugada despropositada
arrastada pelos galos
em berros enlouquecidos.

aqui 
desassossego de mariposa hiperativa
insone e descoordenada
saracoteando em torno da luz.

mas sem a luz.

OUTREM

Haja eu 
para tantas alheidades.

neologisticamente


haja
reconstruções
para tantas
desinvenções de mim.
 
Haja metáforas fajutas
e proesia desversadas

para tanta tarja preta.

domingo, 2 de dezembro de 2012

NOITE

O vento assusta minha janela
que estremece,
quebra o silêncio,
agita a escuridão.

É um retrato vivo que esperneia
a noite
presa na moldura
da minha janela assustada.

INSONE



Só um insone sabe o que é ser insone.
Essa sensação de que a cama ficou pequena demais para os pensamentos, ou os pensamentos grandes demais para a cabeça chega a ser torturante. Você olha para as paredes, o teto, os velhos livros já lidos e começa a ler novos outros e a cada meia hora olha para o relógio e constata que não se passaram nem dez minutos.
Você poderia perfeitamente realizar todos os afazeres do seu cotidiano, se não fosse essa obrigação social de viver durante o dia, que o faz desejar ardentemente que o sono venha.
A Terra gira muito lentamente durante a madrugada. Às vezes tento calcular quantas noites cabem em uma noite de insônia. Provavelmente inúmeras. Você poderia dormir, sonhar vários sonhos, acordar várias vezes e tornar a dormir, se as noites normais tivessem duração da noite de insônia. Você calcula quantas horas ainda restam até a hora de levantar, e é impressionante como você deseja que chegue logo esse momento. Não adianta apagar as luzes ou fechar os olhos, eles acabam se abrindo novamente para olhar para a janela para ver se o dia já amanheceu.
Você pensa naquelas gotinhas de tarja preta que não tomou e se sente a criatura mais ingênua por ter acreditado que conseguiria dormir. Aí você divaga, rola na cama, canta um trecho de alguma música para tentar controlar o nervosismo, volta para a posição inicial na cama, traça planos para o dia, para a semana, para o fim do mundo... mas não amanhece. E pensa novamente nas gotinhas, olha para o relógio, calcula quanto tempo ainda tem e constata que é tarde demais. Ou quase cedo demais.
Você sabe que por volta das onze da manhã, próximo ao meio-dia, o sono vai aparecer. Começa a imaginar então quais seriam as possibilidades reais de um descanso no meio da tarde. Volta a traçar planos, modificando-os todos. Olha para o relógio, olha para a janela e ainda não amanheceu.
Você jura que na próxima noite se lembrará de tomar as gotinhas, mesmo sabendo que certamente estará tão cansado, tão esgotado, que será ingênuo o suficiente para acreditar que basta deitar para dormir.
Então olha novamente para o relógio e torna a olhar para a janela. Quem dera se a Terra girasse um pouquinho só mais rápido.

sábado, 10 de novembro de 2012

Lamento

Ai de meus olhos que não voam,
que não engolem esse espaço em que me perco.

Ai de minha voz que não te alcança
e tristemente vai se acabando
como um canto tardio.

O céu acinzentado leva-me para cada vez mais longe
enquanto os olhos se acostumam com nuvens carregadas.
E, limitados, ficam.

Ai de mim
que não me faço estiagem
que não sou feita de sol
nem de tuas nuvens brancas.