sábado, 17 de abril de 2010

A um poeta

Dessa tua loucura travessa
nascem tons que nem se sabiam,
colorem teu chão cor-de-vida e refletem
pedras íntimas de tropeços e passos.

Nos traços feitos do que só se imagina
explodem pedaços de sóis, jardins e mares.
Tecem-se vidas e lembranças fugidias
que o tempo espalha, mas que voltam.

E os retalhos do mundo que esboçam tuas faces
nem sabem dizer se vais como homem ou menino,
Porque revelar-se e não o fazer, de verso em verso,
é próprio da tua essência livre e transparente.

Tua liberdade é uma louca que tem olhos de criança
e alma virgem que vai parindo poesia.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

desconstrução de mim

a luz o tempo o efeito
a vertigem a viagem
o vazio o chão o copo
o som o gosto a clave
o sarcasmo o espelho
o silêncio a voltagem
o caco o sexo o álcool
o soluço o céu a volta
o gozo o suor o resto
o traço o agudo a dor
o antipsicótico a voz
o grito a culpa a fuga
o sangue a veia a cor
a orgia o faro o denso
o complexo o veneno
o clichê o vício a gota
o corte o fio o reflexo
o desnexo o contrário
o espasmo o profundo
o ácido o lixo o prolixo
o surto o vago o medo
o sábado o transtorno
o marasmo a metáfora
a língua a queda o falo
a boca a fome o pedaço
o palavrão o desespero
o autodesprendimento
o descaso o asco o caos

o ciclo psicossomático
o ciclo pluriorgástico
o ciclo desmistificado
o ciclo contraditório
de começo meio e abismo.

não estou pra ninguém

não quero palavras fáticas socializadas
nem essas convenções que me cansam
horários datas notícias horóscopo café
deveres jornais e saudações ensaiadas
não quero muros latas de lixo nem lixo
ou ruas com suas esquinas e palavrões
nem o belo pintado refeito e disfarçado
nem o sujo apodrecido chocante e vivo
passos marcados pés saladas de rostos
ternos minissaias bocas pernas bundas
mais rápidos mais tensos e mais loucos
nem os loucos os exóticos e os perdidos
não quero ver poros transpirando vida.

hoje eu vou me trancar e fazer turismo em minha concha
e só saio quando meu temporal estiver vestido de arco-íris.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

passional

passo a passo
passo
a
passo

Coração acelerado.
Um grito seco no ar gelado da madrugada.

A lua derrama seu branco na calçada tingida de vermelho paixão.

Em silêncio
a cidade dorme.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

aquilo que não se explica

Tua serenidade e teu encanto atravessaram meus olhos
E te desenhei em pensamentos de orvalho e luz.
Da tua voz que nunca ouvi, mas que não se cala,
Fiz um o canto perfeito e nítido como a manhã.

Tua suavidade não se explica e não se explica teu cheiro,
Mas cabem bem na minha imaginação com tua boca e pele.
E enquanto me tens sem reservas, transparente e nua.
Eu te guardo em meus espaços que decoram tua passagem.

Na rendição confortante que me invadiu sutilmente
Repousei minhas resistências antes que amanhecesse,
E uma fantasia absurda que ignora lógica e distância
Instalou-se em minhas pálpebras com o toque de teus lábios.

Tua lembrança susteve no meu rosto um riso bobo e essa paz,
Que agora resplandece com acordes em tons de Sol.

domingo, 31 de maio de 2009

do que é incompleto

Numa parte que me falta
ficou uma dor assim desajeitada,
metade de um riso escondido
que se misturam a um alívio estranho.

O tempo que tínhamos nas mãos
de repente se fez nuvem
e se desfez lentamente,
como o silêncio macio da tua risada.

Então escondi o rosto ente meus dedos
e com o olhar pálido e meditativo
segui o brilho em prata e ouro
dos teus passos em liberdade.

E contemplei teus rastros feitos de resto de orvalho
se confundirem com os primeiros traços da manhã.

domingo, 17 de maio de 2009

calmaria






Talvez eu tentasse falar
mas o silêncio ganhou minha língua e voz
e me desfez mansamente,
a mim, que desconheço o que é manso.

Num breve momento de desvelo e perfume,
as minhas pálpebras serenaram.
O que era efêmero se transfez:
e susteve o tempo, feito um acorde.

Mas um pedaço de mim se desprendeu
com a leveza da tua voz descansada.
Ficou a sensação que nem se descreve
do riso fácil que não se mostra,

da paz, em minhas mãos aquecidas,
do gosto das palavras caladas.