domingo, 31 de maio de 2009

do que é incompleto

Numa parte que me falta
ficou uma dor assim desajeitada,
metade de um riso escondido
que se misturam a um alívio estranho.

O tempo que tínhamos nas mãos
de repente se fez nuvem
e se desfez lentamente,
como o silêncio macio da tua risada.

Então escondi o rosto ente meus dedos
e com o olhar pálido e meditativo
segui o brilho em prata e ouro
dos teus passos em liberdade.

E contemplei teus rastros feitos de resto de orvalho
se confundirem com os primeiros traços da manhã.

domingo, 17 de maio de 2009

calmaria






Talvez eu tentasse falar
mas o silêncio ganhou minha língua e voz
e me desfez mansamente,
a mim, que desconheço o que é manso.

Num breve momento de desvelo e perfume,
as minhas pálpebras serenaram.
O que era efêmero se transfez:
e susteve o tempo, feito um acorde.

Mas um pedaço de mim se desprendeu
com a leveza da tua voz descansada.
Ficou a sensação que nem se descreve
do riso fácil que não se mostra,

da paz, em minhas mãos aquecidas,
do gosto das palavras caladas.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Urgência

uma hora o amor aparece,
e consome essa urgência
que me transborda pelos poros.

até lá,
solidão a me contar piadas
fica debruçada no espelho,
olhar quase cínico
por trás da ferrugem.
riso de deboche e compaixão obscena,
como quem relembra um gozo.

corto a madrugada
com os cacos do espelho.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Tóxico

se vais ou ficas
já nem me interessa.

ficam
meus olhos presos em tua boca
enquanto caminho em teus cabelos.

e se devoro
tua saliva e teus venenos
convertidos em verbos

é só um modo doentio
de sarar minha carne corrompida
e te pertencer um pouco mais

enquanto adulteras minha corrente sanguínea
invadindo-me gota a gota,
amargamente.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Brilho Insone

menina de olhos abertos
de insônia em insônia
nas madrugadas

entre acordes de violão e vinis de Chico
e drummonds avulsos
que coisa
não dorme

notívaga
derrama o fim do escuro
em mais uma xícara de café

e que à noite brilhem sempre
como estrelas,
olhos sem receita de Ester.

Cris e Calaça

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Função Poética

A mim já não satisfaz
a arte perfeita, pesada e medida.

Prefiro minha loucura dolorida e sincera
aos valorosos moldes vazios.
Meus substantivos desadjetivados
não cabem nas suas leituras.

Deixo para o papel algumas
overdoses que não tive,

e que meu sentimentalismo barato
sirva-me pelo menos para rascunhar
alguns orgasmos, ainda que medianos
metrificados em fingimentos poéticos.

Pequeno poema de amor

Meus lábios
pequenos
se alegram
com tua língua
ágil e precisa
me provocando
arrepios
e acelerando minha respiração.

Preparas a boca
que te come.