preciso de ar. mais ar do que cabe em meus pulmões cansados ressecados vazios mas sobrou alguma palavra mal dita não dita desdita parada em minha traqueia.
EU NUNCA TIVE MEDO DA MORTE... ... nem quando ela andou me rondando, ora lasciva, sedutora, ora criança crescida que estendia os braços em minha direção me chamando para brincar. Ela era cheia de risinhos e escárnios, às vezes nem expressão ela tinha. Mas como me atraía aquele olhar vazio e solitário pedindo companhia. Me hipnotizava. Por mais de uma vez joguei com ela, ficamos frente a frente, ela não conseguia nem transmitir confiança com seu feitio esquálido e mudo e muito menos metia medo. Mas agora, vendo-a assim, aproximando-se lentamente, sorrateiramente, sem risos nem escárnios, só uma face sisuda e desconfortável de alguém que mudou tanto a ponto de não ser reconhecido de imediato, agora que ela passa por mim fingindo não me conhecer e nem faz questão de me olhar, agora ela me faz estremecer. A morte mudou sua feição. Amadureceu. Tem jeito de quem não está para brincadeira. Virou coisa séria. Ora avança, ora recua, mas na maioria das vezes permanece estática, observando, como se esperasse o momento ideal. Algumas vezes eu consigo até sentir seu cheiro, ou sua respiração. A morte respira lenta e profundamente, quase um suspiro. Ela anda pela casa como se fizesse parte das paredes ou dos móveis. Conhece cada um dos cômodos, os quartos, tenho mesmo a impressão de que nos conhece a todos. Eu não a conhecia, eu não a esperava. Uma desconhecida caminhando pela casa e deixando seus suspiros pesados no corredor. Não me procura nem tem mais olhos solitários. Instalou-se e seu olhar é de espera e paciência. E insiste em ficar. Lembro-me de quando eu não tinha medo da morte, ao meu lado sempre pareceu-me inofensiva. E ainda agora se tivesse voltado não como uma estranha, mas como aquela com quem cheguei a me acostumar, minha alma não se inquietaria. Mas dessa morte, íntima de casa, que não me ronda, não me mira, e que não está para brincadeira, ah... dessa morte, eu tenho medo.
Haja eu para tantas alheidades. neologisticamente haja reconstruções para tantas desinvenções de mim. Haja metáforas fajutas e proesia desversadas para tanta tarja preta.
Uma escrevinhadora que arrisca alguns versos para não morrer sufocada por palavras. Surtada. Impulsiva. Desastrada até nas rimas. Queria ser poeta, mas dos poetas só herdei o jeito esdrúxulo de ser. Ou não ser.